DDR Museum, em Berlim: o museu da Alemanha Oriental

Museu sobre Alemanha comunista, o DDR Museum revela como eram cotidiano da população e clima de Berlim Oriental nos tempos do Muro. Objetos e ambientes recriam a vida segundo os padrões do socialismo 

Gravador com toca-fitas, escovas de cabelo e bobs de plástico, televisão com imagens desbotadas, ursinhos daquela pelúcia peluda (nada do macio plush). Nas cores, muito marrom — o máximo da ousadia em decoração era o uso de um certo laranja ou de tons pastéis. Estávamos novamente com 5 anos.

É como se a porta de entrada do DDR Museum, museu sobre a Alemanha Oriental em Berlim, fosse uma máquina do tempo programada para nos levar aos anos 1970. Nascidos nessa década, vivíamos rodeados por objetos semelhantes na infância.

A ideia é justamente promover a imersão do visitante no estilo de vida cotidiano de um cidadão da Alemanha comunista. Um museu elaborado para que os objetos estejam sempre ao alcance das mãos. São portas para abrir, vídeos para ver e até um carro para dirigir virtualmente pelas ruas de Berlim Oriental.

DDR MUSEUM, EM BERLIM – Fotos: Nathalia Molina @ComoViaja

Como é o DDR Museum

O museu ocupa cerca de 1.000m² de área e foi elaborado com a ajuda de historiadores. Altamente interativo, contém explicações em alemão e inglês. Desde a entrada, o visitante é convidado a vasculhar o passado, literalmente. Em torno de 250.000 objetos originais da Alemanha Oriental fazem parte do acervo do DDR Museum, para recompor a história do país a partir do cotidiano de seus habitantes.

Nossa viagem ao passado começou assim que nos deparamos com a figura dos bonequinhos do farol de Berlim, os Ampelmännchen. São eles quem recebem os 500.000 visitantes ao ano na catraca do museu. Validado o ingresso, sinal verde para iniciar a visita.

O que fazer no DDR Museum

O sucesso do DDR Museum está no fato de ser acessível a todas as idades. A dica é explorar cada seção ao máximo, por isso mesmo vamos dar uma destrinchada em alguns setores legais de serem vistos.

De cara, aconselhamos dar uma chegadinha para o lado direito da entrada, onde fica o passeio virtual a bordo do Trabant. É melhor ir logo se não tiver fila. Fernando conta como foi a performance dele tendo Joaquim de copiloto no texto Trabi, o carro-símbolo da Alemanha Oriental. Exibidas em um monitor que fica no lugar do para-brisa, as instruções para dirigir são tão simples quanto o veículo. Depois de meter o pé na tábua, bora conhecer o museu!

Desça um pequeno lance de escada. No piso abaixo do nível da entrada o visitante vê como foi construído o Muro de Berlim, a barreira de 155 km de extensão que tornou Berlim Ocidental uma ilha capitalista dentro da socialista República Democrática da Alemanha — em alemão, Deutsche Demokratische Republik (DDR), daí o nome do museu.

MAQUETE DO LADO ORIENTAL DO MURO DE BERLIM

Grande parte do acervo permanente está exposto em um mobiliário inspirado nos blocos do Wohnungsbauserie 70 (WBS 70), o conjunto habitacional típico da República Democrática da Alemanha. Portas e janelas deste imenso arquivo revelam usos e costumes do país. Joaquim curtiu ver os brinquedinhos de época.

VASCULHANDO O PASSADO

Uma outra seção mostra as profissões mais ‘populares’ da Alemanha comunista, quase todas ligadas ao setor industrial e da construção civil e de serviços. Os mais jovens tinham seu destino profissional definido mais pela necessidade econômica do país do que por desejo próprio. No fim do anos 1970, ser vendedora em uma loja de departamentos era a atividade número 1 recomendada para moças, enquanto que receber noções de mecânica era garantia de emprego para os rapazes.

PROFISSÕES DA ANTIGA ALEMANHA ORIENTAL

VISITE APARTAMENTO DECORADO

Para nós, um dos pontos altos da visita foi ver como era por dentro um legítimo apartamento da Alemanha Oriental. Foi como se estivéssemos no set de Adeus, Lênin (no filme de Wolfgang Becker, um filho recria uma RDA que deixou de existir durante os 8 meses em que a mãe, socialista convicta, esteve em coma).

Ver trechos de um antigo programa de televisão (com sua estética engessada, um pouco como o dia a dia daquele período), dedilhar uma antológica máquina de escrever Erika, artigo vintage nos mercados virtuais dos dias de hoje, tudo estava ao alcance nesta área do DDR Museum.

CRIANÇA MEXE EM TUDO!

Joaquim até arriscou um alô num antiquado telefone de disco, enquanto Nathalia se divertiu ao ver objetos de decoração que lembravam muito a estética dos anos 1970, década em que nascemos, com a diferença de que muitos daqueles utensílios fizeram parte da vida dos alemães orientais por mais tempo do que eles poderiam imaginar — apesar de ser a economia mais forte dentre os países debaixo do guarda-chuva soviético, a Alemanha Oriental não conseguiu promover bem-estar material a seus cidadãos.

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DIÁRIO DA ESCASSEZ

Sem um Plano Marshall, ajuda econômica que despejou bilhões de dólares sobre a parte ocidental da Alemanha, a fim de ajudá-la em sua reconstrução no pós-Guerra, restou ao lado leste alemão alinhar-se às regras ditadas por Moscou. A planificação econômica permitiu à Alemanha Oriental dar boas condições de vida a seus cidadãos até início do anos 1970. Depois desse período, até havia produtos para o consumo, mas eles não chegavam a todos necessariamente. O museu conta que havia listas de espera para apartamentos, armários e automóveis —  ter um Trabi exigia de alguns compradores até 10 anos de espera!

SONHOS DE CONSUMO NA ALEMANHA ORIENTAL

No acervo do DDR Museum há um documento chamado de ‘diário da escassez’. A dona de casa Ingeborg Lüdicke anotou em um caderno absolutamente tudo o que estava em falta na pequena Wörlitz,  cidade onde morava. Em meados dos anos 1980, não havia de alguns gêneros alimentícios a materiais específicos para que um dentista implantasse uma coroa na boca de um cidadão.

TRABI: ATÉ 10 ANOS DE ESPERA POR UM CARRO

REDENÇÃO NO ESPORTE

Sistema social que procurou se afirmar como alternativa ao capital e ao consumo, o socialismo não restringiu sua luta ao plano das ideias. O esporte foi um campo oportuno para demonstrações de poder e superioridade das nações integrantes da chamada Cortina de Ferro.

Como forma de propagandear o sucesso do regime, o investimento estatal feito na preparação de atletas rendeu à Alemanha Oriental inúmeras medalhas e recordes que perduram até hoje, ainda que muitos desses feitos tenham ficado sempre à sombra das suspeitas de doping, o que nunca ficou totalmente comprovado. A despeito disso, o museu guarda medalhas e a biografia de heróis que colocaram o país entre os primeiros colocados em três edições consecutivas dos Jogos Olímpicos: 1972 (3º), 1976 e 1980 (em ambas, terminou atrás da União Soviética).

No DDR Museum, uma vitrine guarda também um dos momentos mais gloriosos do futebol da Alemanha Oriental, que participou de apenas uma Copa do Mundo: em 1974, justamente na Alemanha Ocidental. O sorteio colocou os dois países na mesma chave do torneio, com o confronto entre eles programado para a última rodada da fase de grupos.

Em 22 de junho, na cidade de Hamburgo, o meio-campista Sparwasser marcou o único gol do jogo, aos 32 minutos do 2º tempo. A vitória por 1 a 0 deu o primeiro lugar da chave aos alemães orientais, com os anfitriões terminando a fase classificatória logo atrás. Ambos passaram às quartas de final. A Alemanha Ocidental terminou campeã da Copa que organizou. Ganhou o campeonato, mas não o clássico.

Símbolos do grande feito futebolístico da Alemanha Oriental, a camisa de Sparwasser, a bola utilizada no jogo e uma flâmula estão lá expostos no DDR Museum. Fernando e Joaquim se  aventuraram a reviver aquele jogo na pequenina mesa de pebolim que tem no museu.

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CORTINA DE FUMAÇA

Quando deixamos a parte do museu que trata do cotidiano da Alemanha Oriental, ficamos frente a frente com uma espécie de cortina de vapor, onde a imagem dos típicos conjuntos habitacionais de Berlim Oriental é projetada. Atravessamos aquela fronteira ilusória e caímos nas entranhas do poder. O peso dos móveis equivale à presença que o Estado tinha no andamento do país. Nas paredes, cores e símbolos que acompanhavam a falta de pluralidade do sistema político vigente. Sobre mesas interativas, explicações de como funcionava a estrutura de poder da Alemanha Oriental.

IDEOLOGIA E PRESENÇA DO ESTADO – Foto: DDR Museum, Berlim/Divulgação

A rotina na República Democrática da Alemanha não incluía apenas comer pepinos Spreewald ou circular de Trabi. O permanente estado de vigilância fazia parte do dia a dia de seus cidadãos. A movimentação de pessoas era monitorada pela Stasi, o serviço de segurança e inteligência que operava com ampla rede de agentes e colaboradores (estima-se que até 170.000 pessoas trabalharam para o órgão de controle mantido pelo Estado).

Ser apanhado pela Stasi representava ter de passar por horas de interrogatório e, não raro, ficar preso. No DDR Museum, Fernando passou pela experiência de entrar numa cela como a que muitos “inimigos” do regime foram colocados. Ele achou bem desagradável, assim como foi igualmente desconfortável quando entrou na sala de interrogatório, cuja experiência consiste em apoiar os cotovelos sobre a mesa e levar as mãos aos ouvidos para escutar perguntas gravadas. Não é preciso entender o se diz para sacar que o clima era pesado.

MESA INTERATIVA DO DDR MUSEUM – Foto: Nathalia Molina @ComoViaja

Apesar disso, nem toda a repressão foi suficiente para calar os movimentos sociais que, com o respaldo da Igreja Protestante, acolheram os ideais de mudança política. Por detrás do grande armário adesivado pelo retrato de Mikhail Gorbatchev, os últimos objetos e documentos do DDR Museum estão ali para explicar como as mudanças políticas e econômicas implantadas pelo líder da União Soviética não poderiam ser ignoradas pela Alemanha Oriental. A pressão popular colocou o governo do então presidente Erich Honecker contra o Muro.

É nesse ponto de transição, quando as duas Alemanhas estão prestes a voltar a ser uma única nação que a visita chega ao fim. Deixamos o museu por um buraco aberto num pedaço recriado do Muro, como tantos alemães fizeram na noite fria de 9 de novembro de 1989.

GORBACHEV E HONECKER, OS CAMARADAS

VALE SABER

Endereço: Karl-Liebknechtstrasse, 1, Berlim, Alemanha. O museu fica às margens do Rio Spree, bem atrás da Catedral de Berlim (Berliner Dom)

DDR MUSEUM E O RIO SPREE – Foto: Nathalia Molina @ComoViaja

Transporte: De trem (S-Bahn), use as linhas S3, S5, S7, S75 (desça na estação Hackescher Markt e pegue a saída para a Spandauerstrasse.

De bonde (tram), use as linhas M4, M5 ou M6, que também param na mesma Spandauerstrasse, só que do outro lado da rua. De ônibus, utilize as linhas 100, 200, 248, M48 ou TXL (desça na parada Spandauerstrasse, quase na esquina com Karl-Liebknechtstrasse, a rua do DDR Museum). Nos 3 casos, você caminha um pouquinho, mas há placas do DDR Museum indicando o caminho. Um lance de escadas leva você à entrada do museu. Na porta do DDR Museum há ainda a estação DomAquarée, onde param os passeios de barco pelo Rio Spree

O ACESSO AO MUSEU

Funcionamento: Diariamente, das 10 às 20 horas (sábado, até 22 horas)

Preço: adultos, 9,50 euros; crianças, 6 euros — até 5 anos, grátis. Pelo site do museu, as entradas custam a partir de 5,50 euros — o ingresso VIP online (com direito a escapar da fila) tem preços a partir de 8,50 euros

Compras: A lojinha do DDR Museum é uma perdição. Livros sobre aspectos políticos da Alemanha Oriental, vários exemplares que discorrem a respeito do Muro de Berlim e até publicações com receitas típicas da cozinha do leste estão à venda (naturalmente, todos em alemão ou inglês). Há também jogos de perguntas e respostas sobre a DDR, brinquedos vintage como um simpático patinho de pelúcia e a famosa trinca de suvenires: chaveiro, caneca e imã. Nós garantimos alguns magnéticos e uma miniatura de Trabi, verde. A loja também vende pela internet

Site: ddr-museum.de

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