Muro de Berlim: após a queda, minhas 2 viagens

Fotos: Nathalia Molina @ComoViaja
Fotos: Nathalia Molina @ComoViaja

Era 1992. O Muro tinha caído havia três anos, mas Berlim seguia visualmente dividida. Era clara a diferença quando se caminhava pelas ruas. O lado leste estava detonado.

Me lembro de ir a duas festas underground em prédios meio abandonados na antiga Berlim Oriental. O carimbo fluorescente na mão me garantia a entrada nos ambientes que se equilibravam num sobe-e-desce de escadas. Eu, com 21 anos, me equilibrava no alto do copo daquela gigante cerveja alemã, em temperatura ambiente – fria, era início de abril.

Minha tia (e madrinha) morava em Berlim e eu fui visitá-la. De dia, ela me levou a todos os pontos turísticos do lado ocidental, como a Potsdamer Platz. Dividida pelo Muro de Berlim, a praça começava a se reerguer como símbolo de uma cidade que queria se tornar uma novamente. Hoje a Potsdamer Platz é enorme e moderna.

Muro de Berlim, Queda, Viagem 1992 - Foto Nathalia Molina @ComoViajaUma das construções marcantes na minha memória era a Kaiser-Wilhelm-Gedächtnis-Kirche, igreja de torre bombardeada no comecinho da Kurfürstendamm, principal avenida do lado oeste de Berlim. Não vi em 2014 a gente de roupa preta e cabelo colorido sentada na escadaria da igreja marcada pela Segunda Guerra. Após 22 anos, voltei a Berlim em família, com meu marido, Fernando, e meu filho, Joaquim.

Durante os dias da minha primeira visita à cidade, caminhei muito pela Kurfürstendamm. Estive com a minha madrinha na KaDeWe, loja de departamento que segue funcionando na principal avenida do lado ocidental de Berlim. Também conheci o zoológico. Em 2014, estive no Berlin Zoo com meu pequeno de 5 anos.

Em 1992, o Reichstag não tinha metade do glamour atual entre os turistas, nem a belíssima cúpula de vidro. Afinal, foi exatamente em 1992 que decidiram que o prédio do parlamento alemão devia ser reconstruído. Lá dentro uma exposição mostrava num enorme mapa suspenso, com luzinhas coloridas, o avanço do domínio alemão na Europa durante a Segunda Guerra e sua consequente derrocada. Adorei ver aquela representação da evolução dos acontecimentos – naquele tempo, interatividade não era palavra-de-ordem; acho mesmo que nem existia como palavra.

Muro de Berlim, Queda, Viagem 2014 - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (6)

Lembranças de Berlim Oriental

Agora em 2014 o verde do gramado diante do Reichstag se contrapôs à lembrança de uma praça feiosa de 22 anos antes. Bem, a memória pode estar me pregando uma peça, até porque a cidade não tinha passado por um planejamento urbano após a queda do Muro e ninguém podia sonhar com Google Maps para dar aquela ajudinha na hora de se localizar.

Muro de Berlim, Queda, Viagem 1992 - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (3)Naquele largo, havia gente vestida com trajes típicos russos, tocando no asfalto ou dançando num palco armado ali para uma festa de rua. Em banquinhas vendiam matrioshkas. Foi ali que conheci as bonequinhas russas que se metem uma dentro da outra.

Muro de Berlim, Queda, Viagem 1992 - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (2)

Seguimos caminhando para ver o Portão de Brandemburgo. A imagem da antiga porta da cidade, com aquele monte de gente festejando, é vista em dez entre dez reportagens sobre a queda do Muro de Berlim. E lá estava eu, 3 anos depois de ver o Branderbuger Tor pela televisão.

Ele também teve um papel marcante na nossa viagem em família em 2014. É ver a foto ou o desenho do monumento que nosso filho, Joaquim, exclama feliz: “É o Portão de Brandemburgo!” Nossa visita foi um momento tão festivo entre nós que consegui registrar um instante lindo dele com Fernando, saltando diante do vão da porta.

Muro de Berlim, Queda, Viagem 2014 - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (3)

Quando decidimos ir em família à Alemanha, eu sabia que veria uma outra cidade. Por ler muito sobre turismo e trabalhar em caderno de viagem de jornal, acompanhei as mudanças da capital alemã ao longo desses anos. Tinha muita curiosidade para voltar a Berlim e descobrir o que daquelas memórias de 22 anos atrás encontraria par com a realidade.

Muro de Berlim, Queda, Viagem 2014 - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (10)Na Berlim Oriental de 1992, não havia o maravilhoso acervo da Ilha dos Museus (Museuminsel), uma das atrações mais conhecidas atualmente por quem aprecia cultura. Estive, sim, na Alexanderplatz e tirei a clássica foto, embaixo do relógio com horários de várias cidades — feito repetido em 2014 com meu filhote.

Relogio na Alexanderplatz Berlim Alemanha Viagem - Foto Nathalia Molina @ComoViajaAli na praça comi currywurst, salsicha típica de Berlim. Me chamou a atenção o tamanho do pão. “Aqui na Alemanha o pão é praticamente para segurar a salsicha. Eles gostam mesmo é da salsicha”, me ensinou minha madrinha.

Também subi com ela até o observatório da Torre de TV para ver Berlim do alto. Repeti a dose em 2014. Impressionante a diferença na organização e na sinalização que encontrei na atração agora.

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Enfim, diante do Muro de Berlim

Muro de Berlim, Queda, Viagem 2014 - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (4)Nenhuma sensação, no entanto, foi para mim mais impactante que me ver cara a cara com o Muro de Berlim pela primeira vez. Tantas representações, ideais, vidas estampadas ali. Hoje sempre lembradas pelos visitantes pelas imagens do segmento eternizado na East Side Gallery, trecho do Muro com várias pinturas coloridas.

Na minha memória, segue vivo o preto no branco da contagem de mortos estampada sobre concreto em 1992. Gente que havia tentado transpor a barreira física que se estabeleceu entre dois mundos.

A emoção me tomou por estar ali, pela primeira vez, diante da história viva. Ainda por cima era minha estreia na Europa. E logo com Berlim. Eu que sempre me interessei por história, especialmente pelos acontecimentos do século 20. Nazismo, Segunda Guerra, Muro de Berlim. Tudo isso sempre me intrigou. Adolescente dos anos 1980, eu vivi o planeta rachado pela Guerra Fria, cujo ícone máximo era aquela cidade dividida.

Muro de Berlim 1992 Viagem Alemanha - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (1)

 

Pedaços do Muro eram vendidos em todo canto em 1992. Ninguém sabia se, de fato, originais. Hoje o assunto é tão bem explorado pelo VisitBerlin, responsável pela promoção turística da cidade, e tudo o que se refere à antiga barreira está tão estruturado (como só os alemães sabem fazer) que é possível comprar online um pedaço certificado do Muro.

Foi por meio de um daqueles pedaços (verdadeiros ou não) que meu marido teve contato pela primeira vez com o Muro. Muro de Berlim, Queda, Viagem 2014 - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (2)Pouco depois do fim da divisão de Berlim, uma vizinha dele esteve na Alemanha e voltou para São Paulo com um fragmento da história. Ele conta que ficou impressionado. Não mais do que ao se deparar com o Muro ao vivo na nossa viagem em 2014.

Hoje, neste 9 de novembro histórico, quando a capital alemã celebra 25 anos da queda do Muro, nós dois passamos o dia com a cabeça em Berlim. Ah, como seria lindo estar lá para ver as 8.000 luzes demarcando 15 quilômetros do risco que partia a cidade. Para depois comemorar o simbolismo de ver tudo aquilo se apagar nos balões soltos no ar. Festejando o futuro. O que aconteceu nesse quarto de século e o que ainda está por vir.

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