Museu da República, no Rio

Museu da República, no Palácio do Catete, tem belo jardim ao fundo, preço bom, cinema e horário de visitação estendido às terças. Residência presidencial quando o Rio era capital, prédio ficou marcado pelo suicídio de Vargas

ATUALIZADO EM 13 DE NOVEMBRO DE 2017

Durante 63 anos, grande parte das decisões mais importantes do Brasil foram tomadas em um mesmo endereço: o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. O prédio que serviu de residência a 18 presidentes brasileiros virou sede do Museu da República depois que a capital do país se transferiu para Brasília, em 1960. O edifício ficou marcado pelo suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954.

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (27) (740x1024)
Fotos: Nathalia Molina @ComoViaja

Senti um prazer particular ao percorrer aqueles salões. Foi inevitável não lembrar do romance Agosto, que tem como pano de fundo a crise política do governo Vargas e que culminou com a morte do ex-presidente. Li o livro depois de ter visto a minissérie produzida em 1993 pela Globo, a partir da adaptação da obra de Rubem Fonseca.

Essa era minha primeira ida ao museu. Minha e de Joaquim. Ao menos do lado de fora. Porque, nesses 10 anos de idas frequentes ao Rio, sempre que nossa permanência na cidade se estende um pouco, encontramos um tempo para andar pelos jardins do palácio.

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (21) (696x1024)
SAINDO DA RUA PARA ENTRAR NA HISTÓRIA

O Catete é colado nas Laranjeiras, nossa base carioca. Nathalia e eu costumávamos ir a pé e andar por ali antes mesmo de o Joaquim nascer. Com ele, passamos a ir ao pedaço que fica no fundo do jardim, voltado para o Aterro do Flamengo, onde há um concorrido parquinho. A criançada mete o pé na areia e se acaba de brincar — leia mais sobre esse espaço no fim do texto.

No interior do palácio, Nathalia já tinha estado outras vezes, mas essa seria sua primeira visita depois da reforma recente, que incluiu a reabertura do quarto do Getúlio. Para ela, foi a melhor visita. E também a mais calorenta. Apesar de termos ido em um dia chuvoso, padecemos com a calor durante a visitação em janeiro de 2016, a começar pela primeira sala, à esquerda da escadaria principal.

No tempo da aristocracia

Poucos visitantes permaneceram no primeiro espaço porque estava abafado demais. As pessoas mal paravam para ler os painéis que contam a origem do palácio, obra do alemão Gustav Waehneldt, cuja construção teve início em 1858 e levou quase uma década para ser concluída.

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (40) (863x1024)

Da combinação de diferentes elementos arquitetônicos surgiu o Palácio Nova Friburgo, assim chamado enquanto pertenceu à família do fazendeiro Antônio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo, que mandou erguer o edifício a pedido da mulher. Entediada com a paisagem bucólica da serra, a baronesa desejava viver onde pudesse observar o movimento da rua, das pessoas. E a Rua do Catete era o lugar ideal para admirar a agitação do Rio na segunda metade do século 19 (e até hoje é bem agitada).

 

 

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (16) (1024x709)

O barão e a baronesa morreram três anos depois de o palácio ser concluído. Os filhos é que desfrutaram dele por um pouco mais de tempo. O prédio trocou de proprietário duas vezes — quase virou hotel; Nathalia imagina que teria sido lindo de tão chique —, testemunhou o fim do período imperial e a ascensão da República até ser comprado pela presidência do país em 1896. Adoecido, Prudente de Moraes estava afastado do cargo. Coube então ao vice, Manuel Vitorino, adquirir o imóvel e realizar a transferência do poder executivo do Palácio do Itamaraty para o novo endereço, transformando-o no Palácio da República.

Em tempo: Manuel Vitorino era um médico e político baiano, filho de portugueses, mas não é meu parente — embora haja no museu um documento com a letra C na grafia do seu sobrenome, assim como no meu caso.

Sede da República

Com exceção das notas pessoais acima, todas as informações que você leu até aqui estão expostas em painéis ou em totens dentro das salas do museu. Os textos são resumidos e estão escritos em português e inglês. Quando visitamos o museu, havia placas indicando a existência de áudio-guia. Porém, os funcionários nos informaram que os aparelhos encontravam-se quebrados. E que não havia previsão de conserto, já que o contrato de prestação desse serviço (terceirizado) não tinha sido renovado.

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (45) (1024x768)

Também não havia ar condicionado. Em muitas salas, grandes ventiladores estavam ligados na máxima velocidade, o que ajudava a espantar o bafo quente do verão carioca. O fato de o prédio ter aqueles janelões altos contribuía um pouco na circulação de ar.

Por farra e por conta do calor, Joaquim dava um jeito de ficar na frente dos ventiladores. Só teve um lugar — o único sem esse aparelho — em que ele ficou parado, imóvel por 14 minutos.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Um monitor de TV mostrava um vídeo contando as três etapas da história do palácio: como residência aristocrática, como sede do poder e, atualmente, como museu. Essa trajetória é pontuada por fatos marcantes da vida política, econômica e artística do Brasil.

Nathalia seguiu tirando fotos enquanto assistíamos ao vídeo. Ela chegou no fim da exibição, e Joaquim disparou: “Mamãe, sabia que tudo aqui veio de vários países? A escada e os vidros do teto vieram da Alemanha! As pinturas, da Grécia. Os lustres são da França!” Tudo bem, ele aumentou um pouco e botou no mobiliário peça vinda até do Japão. Nada impossível porque, afinal, praticamente todo o material usado na construção foi trazido do exterior.

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (120) (1024x768)

Recomendo que se assista ao vídeo. Ele fornece alguns detalhes da rica decoração. Ou ainda: se você estiver com o celular à mão e sua conexão de internet for boa, entre no site oficial do Museu da República, acesse Visita Virtual e use o recurso como áudio descrição (ah, não se esqueça de usar o fone de ouvido para não atrapalhar outros visitantes). E não deixe de olhar para baixo e para cima durante a visita, para não perder a pintura (teto) ou o mosaico (piso) e a riqueza de detalhes da decoração.

 

A propósito, não use flash nas fotos. Não é permitido, e os funcionários do museu marcam em cima de quem burla a regra (com toda razão). A iluminação é mesmo um pouco difusa. Museu da República, Quarto de Getúlio Vargas, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (8) (1024x768)Nathalia estranhou principalmente a forte penumbra no quarto do Getúlio. Nas outras vezes, ela conta que a janela ficava aberta e a luz do dia batia bem em cima da cama, onde ficava esticado o pijama do ex-presidente. Mas, quando chegamos lá, já era o fim do dia, perto do horário de encerramento da visita. Pode ser, então, que a janela tenha sido fechada por isso.
A roupa de Vargas faz parte do acervo museológico, com cerca de 9 mil peças, entre objetos e coleções pessoais dos presidentes que dali comandaram o Brasil. Na sala de reuniões, repousa sobre a imensa e pesada mesa de madeira o conjunto de pastas de couro usadas em despachos e encontros ministeriais. É nesse salão que está também o quadro A Pátria, tela em óleo pintada por Pedro Bruno, em 1919, representação simbólica dos primeiros anos da República.

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (42) (1024x826)

As marcas republicanas estão presentes também na sala de refeições, onde a prataria, as taças, os pratos e os guardanapos levam a inscrição Palácio do Catete. A mesa está posta; os janelões altos, abertos com vista para o jardim da república.

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (221) (600x800) Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (98) (768x1024)

O quarto do Getúlio

Até chegar ao 3º andar do prédio, o visitante atravessa todo o 2º pavimento, composto por salões ricamente decorados, frequentados pela aristocracia carioca em recepções promovidas pelo Barão de Nova Friburgo e pelos presidentes da República.

Mas o que todos querem visitar é o quarto de Getúlio Vargas, ocupado pelo presidente durante sua segunda passagem pelo poder (1951-1954). Por razões óbvias, é o espaço mais simbólico do palácio.

Museu da República, Quarto de Getúlio Vargas, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (4) (1024x768) Museu da República, Quarto de Getúlio Vargas, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (9) (1024x768)

O mobiliário foi encomendado para a visita dos reis da Bélgica ao Brasil, em 1920. A decoração é até um tanto espartana. O banheiro da suíte, por exemplo, é todo de louça branca, impressiona pela simplicidade se comparado à riqueza das demais salas do palácio.

Museu da República, Quarto de Getúlio Vargas, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (10) (768x1024)

O pijama de Vargas já não fica mais sobre a cama. Uma caixa de vidro guarda a peça de roupa que o ex-presidente usava na noite de sua morte. Com ele estão a bala e o revólver de cabo branco de madrepérola, cujo tiro mudou a história. Quando estivemos no museu, apenas um quadro com um desenho marcava o lugar da roupa. A peça histórica ficaria 6 meses lá e 6 meses fora para os cuidados, segundo nos informaram funcionários.

Museu da República, Quarto de Getúlio Vargas, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (5) (768x1024)

 

Apesar de ter sido palco de uma tragédia, o quarto não chega a ter uma aura pesada. Mas não foi assim que pensou Juscelino Kubitschek. Eleito em 1956, o presidente preferiu morar no Palácio Laranjeiras — localizado no alto do Parque Guinle — a viver no Catete. No mesmo ano em que a capital do país foi transferida para Brasília, o palácio passou a abrigar o Museu da República.

Os outros ambientes do 3º piso estavam fechados à visitação. De acordo com reportagem da Agência Brasil de dezembro de 2015, o aposento onde dormia Getúlio foi reaberto à visitação no dia 22 daquele mês, depois de permanecer fechado desde março. Quando o Palácio o Catete era residência oficial da República, nesse andar ficavam os quartos do presidente e de sua família.

Diversão para crianças e paz para adultos

O jardim do palácio é o lugar ideal para descansar, contemplar as árvores ou jogar conversa fora. As palmeiras são do tempo em que o edifício foi construído. Para receber a presidência da República foram feitas algumas modificações, como a criação de um rio artificial e de uma gruta com cascata, além da construção de três pontes rústicas.

Nos fim dos anos 1990, os muros que cercavam a lateral da Rua Silveira Martins e o trecho voltado para a Praia do Flamengo foram substituídos por grades semelhantes às do entorno do palácio. Essa modificação deixou a visão do jardim muito mais agradável.

O lugar é movimentando o dia todo, com gente caminhando pelas alamedas, pais e babás circulando com carrinhos de bebê desfrutando da sombra das árvores, meninos e meninas se esbaldando no parquinho em chão de areia. Se visitar o Catete com crianças, reserve um tempinho para elas brincarem por lá. Sozinho, aproveite para ficar de bobeira também em um dos muitos bancos espalhados pelo jardim.

Rio de Janeiro, Museu da República, Crianças - Nathalia Molina @ComoViaja

VALE SABER

 

Endereço: Rua do Catete, 153, Catete

Transporte: A estação Catete do metrô tem uma saída bem em frente ao museu. Há diversos ônibus vindos da zona sul que passam na Rua do Catete e das zonas norte e Niterói que deixam o visitante na Rua Bento Lisboa. Como há muitas obras no Rio, algumas linhas sofreram modificação. Consulte o vadeonibus.com.br (site da Federação das Empresas de Transporte de Passageiros do Rio de Janeiro)

Funcionamento: De terça a sexta, das 10 às 17 horas — toda última terça do mês, o funcionamento é estendido até 22 horas. Sábados, domingos e feriados, das 11 às 18 horas — os portões são sempre fechados 30 minutos antes do fim das visitas.
O jardim do palácio funciona diariamente, das 8 às 18 horas (durante o horário de verão, até 19 horas) — o portão de acesso pela Praia do Flamengo só fica aberto de segunda a sexta

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (8) (768x1024)

Preço: R$ 6 — grátis às quartas e aos domingos. Crianças de até 10 anos, pessoas com mais de 60 anos e professores não pagam

Alimentação: Como estava prestes a cair um temporal, pegamos apenas um sorvete e fomos embora. Ao lado da bilheteria do cinema há o Café República e que oferece lanches e salgados. Ele funciona diariamente, sempre que o jardim do palácio estiver aberto. Já O Bistrô República está fechando à espera de licitação

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (260) (1024x768)

Compras: A loja que fica no portão de acesso lateral do museu é especializada em livros e filmes raros

Museu da República, Rio de Janeiro - Foto Nathalia Molina @ComoViaja (10) (768x1024)

Dicas: O Cine Museu da República pode ser uma boa opção para quem quiser fazer uma dobradinha cultural. A sala tem 75 lugares

Site: museudarepublica.museus.gov.br

DEIXE SEU COMENTÁRIO