O legítimo pastel de Belém, em Lisboa

Pastel de Belém, legítimo, só existe um. Fica lá ao lado do Mosteiro dos Jerônimos, na Pastéis de Belém, em Lisboa. O resto… o resto é empada de massa folheada aberta com mingau de baunilha.

Palavra de quem é de origem lusitana e já experimentou tudo quanto é imitação do doce português, dos mais gourmets aos vendidos em rede de fast food. Afirmo que foi o Atlântico que me impôs a necessidade de virar especialista no assunto aqui no Brasil.

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O ENDEREÇO MAIS GOSTOSO DE LISBOA – Fotos: Nathalia Molina @ComoViaja

Origem do pastel de Belém

O mistério é a alma do negócio. Do surgimento dos famosos pastéis ao modo como são preparados, tudo é cercado de sombras. Certo mesmo é que a pastelaria mantém suas portas abertas desde 1837 no mesmíssimo endereço: Rua Belém, números 84 a 88, vizinha ao Mosteiro dos Jerónimos.

Em sua página na internet, a pastelaria conta que o doce surgiu no início do século 19, quando Portugal era sacudido pela Revolução Liberal, movimento político que, entre outras mudanças, forçou o retorno da Família Real que vivia no Brasil desde 1808. A revolução promoveu também a extinção das ordens religiosas em todo o país. Durante a expulsão dos clérigos, conta o site, alguém ligado ao Mosteiro dos Jerônimos resolveu botar à venda os doces na loja ao lado de uma refinação de cana de açúcar. À medida em que ganharam o gosto popular, passaram a ser chamados de pastéis de Belém.

PASTEL DE BELÉM - Foto: Turismo de Lisboa/Divulgação
PASTEL DE BELÉM – Foto: Turismo de Lisboa/Divulgação

Como é o pastel de Belém

Como recebi uma boa educação, não escreverei aqui um palavrão. Mas você certamente vai soltar algum (e vai ser um daqueles de se dizer de boca cheia, com perdão do trocadilho), no dia em que cravar seus dentes naquela massa folheada recheada com creme de natas, ovos e açúcar. Manda a tradição polvilhar canela e açúcar no doce ainda quentinho, o que intensifica o aroma e o sabor dos ingredientes.

A gente curte uma tradição, mas não custa nada quebrá-la de vez em quando. Minha iniciação com os legítimos pastéis de Belém ocorreu em 2006. Nathalia viajou para Portugal quando ganhou seu 1º prêmio da Comissão Europeia de Turismo, ainda pelo Viagem, editoria do Estadão — depois disso, ela ganhou 2 vezes a mesma premiação na categoria Melhor Reportagem na Internet aqui pelo Como Viaja, com o texto Costa Amalfitana, de ônibus e a série Natal na Europa: uma viagem encantada.

Ela esteve na pastelaria e trouxe para nossa casa um tubo com meia dúzia de docinhos. Eles suportaram à viagem e à tentação da Nath de querer devorá-los antes mesmo de atingir águas brasileiras. Quando voltei da TV, os pastéis estavam na geladeira à minha espera. Até aqueci alguns no forno, mas o primeiro… hum, desceu que foi uma beleza, geladinho mesmo.

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NATH E OS MEUS PASTÉIS

Onde comer em Lisboa: a pastelaria em Belém

Juntos, Nath e eu fomos à pastelaria um par de anos mais tarde. Depois de visitarmos o circuito Mosteiro dos Jerônimos, Padrão dos Descobrimentos e Torre de Belém, paramos para lanchar. A pastelaria oferece outros produtos. Experimentamos dois salgados. Não me lembro quais eram, decerto porque não eram inspiradores. Na parte da frente da pastelaria fica um disputado balcão. Uma mesa vagou nos fundos de um dos salões. Todos têm paredes revestidas de azulejos do século 19. Os salgados foram comidos apressadamente. Tínhamos urgência de pastéis. Diante deles (sim, foi, mais de um para mim), senti-me realizado. Completo.

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OFICINA DO SEGREDO: PRODUÇÃO EM MASSA

E então me dei conta de que se pode ver a cozinha através de grandes janelas voltadas para o salão. O espaço da Pastéis de Belém é conhecido como Oficina do Segredo. Nada mais português de tão ao pé da letra para designar onde os genuínos pastéis são produzidos aos montes todos os dias.

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