Stollen, o bolo de Dresden no Natal

O famoso bolo de Natal alemão foi criado no século 15, em Dresden. Conheça a origem, os ingredientes e curiosidades dessa iguaria. Versão gigante do Stollen é servida todos os anos na capital da Saxônia

ATUALIZADO EM 23 DE NOVEMBRO DE 2017

Eu era muito jovem quando vi meu tio Osmar entrar em casa com uma caixa retangular debaixo do braço. Dentro dela havia uma ‘estólen’, como ele mesmo dizia, caprichando no som do ‘o’ bem aberto. Àquela altura eu desconfiava que fosse algo de comer, só não sabia se era doce ou salgado. A embalagem era de um verde típico das coisas que remetem a gente ao Natal.

Eu não estava errado. Meu tio disse então que a tal ‘estólen’ (e como ele saboreava acentuar aquela letra ‘o’) era um doce tipicamente alemão, vendido apenas no Natal pela confeitaria que ficava em frente ao trabalho dele, no bairro do Socorro, zona sul de São Paulo.

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STOLLEN: LEGÍTIMO OU NÃO, UMA DELÍCIA – FOTOS NATHALIA MOLINA @COMOVIAJA

Naquele dia, no fim do almoço — que na minha família sempre foi sacramentado com um café (bem forte, de preferência) — tivemos a revelação. Não era nem appflestrudel nem panetone, duas delícias que eu adoro, por sinal. O Stollen (e ali eu já havia descoberto sua grafia exata na caixa) era um bolo de massa macia, com frutas cristalizadas e amêndoas, coberto por uma fina camada de açúcar de confeiteiro e um pouco de canela. Legítimo ou não, não tínhamos como contestar a receita. Comi. Comemos. Nos fartamos daquela novidade naquele ano. E nos seguintes, sempre no Natal.

Como surgiu o Stollen

O Stollen é uma invenção alemã, mais precisamente da cidade de Dresden. Seu nome original, Striezel, batiza até hoje o mercado de Natal local, o Striezelmarket. A receita surgiu por volta do século 15 e, claro, sofreu alterações significativas até ser composta pelos ingredientes atuais: farinha, fermento, leite, manteiga (na Idade Média, a Igreja Católica vetava seu uso), passas e, às vezes, nozes ou amêndoas.

Em média, 3 milhões de unidades de Stollen são produzidas no período do Natal na capital da Saxônia. Uma versão gigante é preparada todos os anos em comemoração ao dia de São Nicolau, em 6 de dezembro. Esse Stollen avantajado é carregado em triunfo até a praça Altemarkt. Lá é fatiado e vendido, sendo que o dinheiro arrecadado é revertido para a própria cidade.

Atualmente, cerca de 130 confeitarias de Dresden e arredores fabricam o Stollen certificado pela associação que garante do uso correto dos ingredientes ao processo de fabricação, sempre à mão, como ocorre desde a Idade Média.

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Receita diferente, o mesmo prazer

Há uns 3 anos, Nathalia foi a um evento organizado pelo turismo da Alemanha. Na volta, ela entrou no carro com um pacote nas mãos. Minha a atenção ao trânsito foi para o beleléu quando ela pronunciou uma frase mágica: “Ganhei um Stollen, mas ele tombou e deu uma melecada no embrulho. Parece delicioso mesmo assim, vamos provar?”

Enquanto voltávamos para casa, eu contei para Nath a história com que iniciei esse texto. Entre uma frase e outra, eu mastigava cada pedaço que minha mulher me dava na boca. Havia sensíveis alterações nos ingredientes, como a canela incorporada ao recheio e não polvilhada como na versão que experimentei pela primeira vez. O fato é que, para mim, saborear aquela guloseima não se tratava somente de um reencontro com o passado. Mas de um profundo desejo de tomar o primeiro avião e seguir para Dresden, procurar uma confeitaria e ter certeza de que algo tão bom pode ser ainda mais delicioso.

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