Toronto e Montréal: passeio pelo subterrâneo

Minha mãe é daquelas que anda com uma pashimina na bolsa para o caso de fazer frio no cinema – certas salas têm temperatura desumana mesmo. Minha mãe cinéfila e friorenta me informou no início do mês desde Montréal que o inverno andava brando por lá: “Hoje esquentou, está menos 3.” Pode? Pode, ela havia pegado 15 graus negativos, então, menos 3 até que estava bom, não é? Numa cidade em que se compram botas de neve de acordo com a altura da camada de gelo a ser enfrentada na rua, frio mesmo é menos 15.

Em Montréal, as ruas do Réso

Num inverno rigoroso desses, uma rede subterrânea ligando lojas, prédios de escritórios e transporte público é mais do que útil. Pelo Réso, caminho subterrâneo de Montréal, passam 500 mil pessoas diariamente, gente como meu sobrinho Caio, morador da cidade e autor das fotos que ilustram este texto. Com 33 quilômetros de percurso, o trajeto conecta metrô, trem e ônibus, além de 40 pontos com opções de lazer. Uma vez ao ano os corredores são tomados pela Art Souterrain, mostra de arte contemporânea.

O Réso (vem da palavra ‘réseau’, ‘rede’ em francês) fez 100 anos em 2010. Tudo começou com o Place Ville Marie, complexo inaugurado em 1962, que conta com 5 edifícios de escritório, um shopping center e, no total, 80 restaurantes. O primeiro trecho do Réso foi construído para ligar esse ponto à Central Station, com o desenvolvimento do metrô na cidade, devido à Expo 67, feira internacional realizada em Montréal.

CIDADE SUBTERRÂNEA, EM MONTRÉAL – Foto: Caio Molina

Quem desce do metrô na estação McGill, antes ir ao Place Ville Marie, passa pelo concorrente Eaton Centre, o maior shopping na área central de Montréal. Se estiver andando pela Rue Sainte-Catherine, tem uma entrada ali para o centro comercial. Essa é a graça de usar o Réso, subir e descer onde for mais conveniente.

Você vai topar com mapas como este da foto abaixo. Mas se prepare para se perder, ainda que carregue com você um mapa da ville intérieure (cidade subterrânea, outro nome em francês para o trajeto). Os moradores andam com uma naturalidade de tatu, mas provavelmente isso não vai acontecer com você. Não se desespere.

Pelo contrário, aproveite as vitrines, você é turista, está sem pressa para trabalhar. Cansou de andar embaixo da terra? Um modo fácil de se localizar é seguir as indicações para as saídas de metrô. Além da McGill, as estações Peel, Bonaventure e Square-Victoria levam às conexões mais centrais do Réso, mas há outras que dão acesso às pontas do percurso (veja o formato no traço em vermelho nesta imagem).

Caminhos sob Toronto

O mesmo vale para quem visita Toronto, onde o caminho subterrâneo se chama Path e tem origem em 1900. Achei mais fácil de me entender com o mapa do Path, o que não impediu de me perder numa daquelas encruzilhadas. Ao longo de 27 quilômetros de extensão, há 60 pontos onde se decide se vai pela esquerda ou pela direita e 125 acessos à rua – um caso em que os números são autoexplicativos. De acordo com o Guinness, o Livro dos Recordes, o Path é o maior complexo de lojas subterrâneo do mundo, com quase 372 mil metros quadrados de área comercial, estendendo-se da Dundas Street, ao norte, a Lakeshore Boulevard, ao sul.

O desenho e a concepção visual do mapa do Path ajudam, é verdade. Os quadrados representam prédios e as cores dão a direção: azul (norte), vermelho (sul), amarelo (leste) e oeste (laranja). As atrações turísticas estão marcadas com uma estrela; os hotéis, com um H; os prédios culturais, com um C; e os esportivos, com um S. Mas, lá embaixo, para quem não está acostumado à ideia de andar sob a terra, tudo se mistura um pouco. Tem de ter muito senso de direção para saber onde se está a todo momento. Melhor assim, vai que você dá de cara com aquela loja em liquidação? Pois é, com frio e tempo de sobra, adivinha onde minha mãe foi passear no inverno de Montréal?

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