Trabi, o carro-símbolo da Alemanha Oriental

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Fotos: Nathalia Molina @ComoViaja

A passagem por Berlim me fez recordar de uma das aulas do antigo curso colegial, quando aprendi o princípio de Lavoisier, para quem ‘na Natureza, nada se perde, tudo se transforma’. Aqui, a teoria do pai da Química Moderna é licença poética para resumir como os alemães lidam com heranças e memórias do antigo lado oriental da cidade. Na maioria das vezes eles sabem explorá-las de modo turístico e lucrativo, mas sem deixar de preservar a história.

Ampelmann, o bonequinho do semáforo de pedestres da antiga Berlim Oriental, virou uma espécie de embaixador informal da cidade unificada, por exemplo. A situação não é muito diferente com o Trabant, o carro-símbolo da Alemanha Oriental. O último Trabi — apelido carinhoso que o carro recebeu — deixou a linha de montagem em 30 de abril de 1991, quase 1 ano e meio após a queda do Muro de Berlim. Desde então, virou objeto de adoração e nostalgia não só na Alemanha como também em outros países.

Até viajar para Berlim (primeira cidade que visitamos na nossa viagem em família pela Alemanha), o único e escasso Trabant que eu havia visto de perto era o do Flávio Gomes, jornalista e ex-companheiro de trabalho. Colecionador de carros antigos, Flavinho é entusiasta do Trabi, “o veículo mais perfeito já construído pela humanidade”, segundo ele. “Pequeno, econômico, leve, feito de fibra de algodão com resina plástica, que dura até o fim dos tempos”, acrescenta.

Alemanha Oriental Trabi Rosa Carro Trabant, Leste Europeu - Foto Nathalia Molina @ComoViajaDo ponto de vista técnico, o Trabant é um veículo simples, cuja potência do motor equivale à de uma moto de 250 cilindradas. No painel não há mais do que o velocímetro e um botão para acionar o limpador de para-brisa. Politicamente insuspeito (luxo é algo pequeno-burguês) e ecologicamente incorreto (o fumacê que produzia atingia níveis de poluição impensáveis nos dias atuais), o Trabi era um sonho de consumo dos alemães orientais. Nesse caso, sonho não é força de expressão, não. Muitas pessoas esperavam mais de 10 anos para poder comprá-lo porque a velocidade de produção da única fábrica de Trabant do país — em Zwickau, cidade a 300 quilômetros de Berlim — não acompanhava a demanda. Ou seja, teve gente que viu o comunismo chegar ao fim antes de guiar seu Trabi.

Quem quer conhecer mais sobre a produção, que chegou a um total de 3 milhões de unidades entre 1958 e 1991, pode ir ao Trabi Museum, próximo ao Checkpoint Charlie, na Zimmerstrasse. Na mostra Die Welt der Trabis (O Mundo dos Trabis), até 31 de dezembro de 2017, estão expostas 15 gerações do carrinho. Entre os exemplares, um modelo Panzer (militar), uma versão em forma de limosine,  um modelo para camping (em que a barraca é montada acima dele) e uma Ferratrabi, adaptação inspirada no automóvel italiano.

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Tour real e virtual

Hoje em dia, quem visita Berlim pode se aventurar pelas ruas da capital alemã a bordo de um Trabi. Também na Zimmerstrasse, perto do Checkpoint Charlie, uma empresa especializada oferece 3 opções de passeio por locais históricos à leste e à oeste da cidade. O tour mais longo dura 2 horas e 15 minutos, tempo em que refaz o percurso por onde passava grande parte do Muro de Berlim, incluindo o longo trecho dele ainda de pé e que compõe hoje o East Side Gallery.

 

“A experiência de guiar esse carro é única. Poucos veículos representam a história de uma nação como o Trabi. Talvez nenhum”, ressalta Flávio Gomes, que foi buscar seu Trabant de cor Sky Blue diretamente na fonte, em 2009. A bordo de seu Gerd, nome que Flavinho deu à nova aquisição, ele deu um giro pelo Leste Europeu antes de embarcar o carro para o Brasil.

Em Berlim, cruzamos diversas vezes com a carreata puxada pelo guia do tour da Trabi Safari. Atrás dele, modelitos conversíveis, um cor-de-rosa, outro em estilo tigresa passavam por nós deixando um inconfundível cheiro de combustível queimado. Para o passeio ficar mais em conta, é melhor que você esteja em grupo de até 4 pessoas, porque o desconto é progressivo. Por exemplo, o tour Wild East (passeio por Berlim Oriental), que passa pela Karl-Marx-Allee (principal avenida daquela parte da cidade) e pela East Side Gallery com seus famosos desenhos no Muro, custa 59 euros por pessoa. Se o carro estiver com 4 ocupantes, cai para 39 euros cada.

Alternativa mais em conta é fazer um passeio virtual no Trabant que fica na entrada do DDR Museum, museu cuja entrada comprada online custa a partir de 4 euros. Quanto estivemos lá, Nathalia e eu encaramos fila para brincarmos de pilotagem no simulador, que reproduz as ruas e os velhos prédios da Berlim Oriental. Foi como jogar XBox usando joystick de Attari. Eu ao volante e Joaquim de colo-piloto esmerilhamos, fizemos altas manobras — muitas delas sobre as calçadas.

Brincadeiras à parte, guiar um Trabant ou apenas vê-lo de em circulação por Berlim nos ajuda a entender um pouquinho mais sobre o passado da antiga Alemanha Oriental, como resume Flávio Gomes: “Quando você entra num Trabi, visita a História.”

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